Morte e vida
- Aline Paulucci
- 1 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Reza a lenda que gatos têm 7 vidas (ou 9 em algumas culturas). E todo mundo sabe disso, apesar de no fundo no fundo as pessoas acreditarem que na realidade o gato tem uma vida só. Se ele morre, ele morre.
E se essa morte não for literal? E se essa morte não falar sobre o coração parar de bater e o cérebro parar de enviar sinais para o corpo?
Desconsiderando a parte que você é bebê, se torna uma criança e depois vira adulto, você sempre foi a mesma pessoa? Você sempre teve os mesmos interesses?
Eu conheci pessoas que começaram uma profissão e continuaram felizes ali até aposentarem. E eu acreditei muito tempo nessa “constância” da vida, e achei que assim deveria ser.
Só que comigo não foi bem assim.
Eu me formei em Ciência da Computação, especializei em Engenharia de Software e sempre acreditei que minha vida fosse viver atrás de um computador. Modéstia a parte, eu era um computadorzinho ambulante, eu trabalhava com números com muita facilidade e tudo que era de raciocínio lógico era muito lógico pra mim, como o próprio nome diz. Minhas notas em matemática e física no final do ano eram sempre acima de 90, e história e geografia eu ralava muito pra conseguir os 60. Eu nunca decorei fórmulas para as provas, eu chegava na prova e deduzia as fórmulas. Então foi muito óbvio pra mim qual caminho seguir naquela época.
Através da TI conheci meu primeiro marido, trabalhamos na mesma empresa, duas cabeças lógicas que pensavam muito parecido. E veio o Arthur, esse “mini gente” que veio pra me ensinar que eu não sabia nada! Esse aspirante a engenheiro que hoje está com 11 anos e já me põe no chinelo com alguns raciocínios lógicos! Tem pedigree! Mas a maternidade me mudou muito, assim como acredito que aconteça com várias mulheres. Tem mulheres que têm um dom natural para serem mães, mas apesar de amar imensamente meu filho, a adaptação não foi nada “constante”. Não foi nada óbvia. E te digo que ainda não é! E amá-lo muito torna as coisas ainda mais complicadas porque eu erro muito querendo acertar. Enfim!
Eu tinha uma vida muito boa, um emprego bom, oportunidades de freelancer, fazia uma viagem internacional por ano, dançava 4 a 5 horas por semana, tinha minha família e muitos amigos por perto.
E aí veio a Austrália. Nos mudamos pra Austrália há 7 anos, e passamos por toda essa adaptação ao inglês, a uma nova cultura. E foi a TI que nos proporcionou essa mudança também.
Veio então o divórcio, e logo em seguida uma pandemia.
E entre cada etapa e outra, me vejo me reinventando, e adaptando.
Há 4 anos conheci meu gringo. Ele faz parte de um mundo completamente diferente do meu. Em todos os sentidos. A adaptação das duas culturas neste caso foi bem diferente, porque não era apenas num âmbito profissional, mas também emocional, como pais e tudo mais que envolve um relacionamento afetivo.
Acredito que meus 40 anos foram um divisor de águas muito significativo na minha história. Os 30 foram significativos em termos de corpo e metabolismo, mas os 40!!! Essa foi uma mudança muito profunda, muito significativa em campos muito internos, na essência, nos valores! Ela não aconteceu em semanas ou meses, essa mudança tem sido tão significativa que está se arrastando por aproximadamente 3 anos.
E de repente, aquela menina de cabeça lógica e matemática, que sentava na frente do computador e resolvia qualquer questão, que trabalhou em grandes e renomadas empresas, vestia roupa social e salto alto, não se reconhecia mais naquele “avatar”.
O que antes me fazia sentir inteligente, estava me fazendo sentir angústia e tristeza. Eu acordava chorando todos os dias, desejando não estar ali mais.
E aquilo era muito estranho pra mim, porque na minha família o que eu conhecia era a “constância”, lembra? Eu não estava entendendo o que estava acontecendo comigo, já tinha ouvido pessoas falarem em “transição de carreira”, mas só quando eram demitidas.
Meu pai mesmo, trabalhou como Engenheiro Eletricista (olha aí o pedigree) por anos na Telemig/Telemar, foi demitido quando aconteceu a privatização e passou num concurso para Polícia Rodoviária Federal, e assim que pode, migrou para área de Engenharia dentro da Polícia. Tá vendo? Até ele mesmo continuou na “engenharia” até aposentar!
Porque eu, por livre e espontânea vontade, iria largar algo que eu tanto amei por quase 25 anos? E que proporcionou tanta coisa boa na minha vida!!
Numa próxima oportunidade, eu venho aqui contar da minha jornada no despertar espiritual e o que me levou a seguir o caminho que eu trilho hoje, pra não me delongar demais.
Mas me diz aqui, como abandonar uma carreira de 25 anos, sem ser demitida, “apenas” porque você chora todos os dias ao acordar, desejando do fundo do seu coração que não tivesse acordado, porque não queria estar ali mais? Porque você não sabe mais quem você é, e todas as áreas da sua vida estão um caos? Porque se você não está inteira pra você, como estar inteira para os outros?
Como isso tudo aconteceu, também é papo para um outro momento, mas finalmente tomei coragem e pedi demissão. Larguei a empresa na qual trabalhei por 7 anos e larguei a carreira que construí ao longo desses 25 anos.
E foi um alívio. Precisei contar com muito suporte emocional, psicológico, energético (meu e de outros profissionais), e uma dose cavalar de coragem.
Hoje estou me dedicando lindamente a minha carreira de Terapeuta, que venho construindo há mais ou menos uns 8 anos.
E aí me lembro da analogia às 7 vidas dos gatos. Realmente meu coração não parou de bater, mas eu não sou a mesma pessoa desde que eu me entendo por gente. Eu morri e nasci de novo quando me tornei mãe. Eu morri e nasci de novo quando me mudei para a Austrália. E talvez essa seja a morte mais dolorosa pela qual eu passei até então, mas eu morri como Engenheira de Software para nascer como Terapeuta. Eu morri de trabalhar com código e nasci para tocar almas. E por aí vai.
Mas o fato é, se eu já morri e nasci de novo várias vezes, eu acredito com toda a minha alma que os gatos também têm múltiplas vidas.
Como dizia Raul Seixas “Eu prefiro ser essa Metamorfose Ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.
E você? Já utilizou mais de uma vida na sua vida atual? 😉



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